Frei Juliano Marcelino Ferreira nasceu em São Vicente-SP, aos 11 de setembro de 1909. Era filho de Antônio Marcelino Ferreira e Júlia de Oliveira Santana. Foi batizado pelo Pe. Manoel Fernandes da Silva, na igreja São Vicente Mártir, aos 7 de novembro de 1909. Aí foi crismado. Fez a Primeira Eucaristia na igreja Santo Antônio do Embaré, em Santos. Fez os primeiros estudos em São Vicente.
Terceiro Franciscano
Com 31 anos de idade, em abril de 1940, foi admitido na OFS (Ordem Franciscana Secular) da Fraternidade Santo Antônio do Embaré, Santos. Trabalhava na firma J.M. HAFERS & Cia. Ltda. Exportadores de Santos, desde 1938. Aos 4 de julho de 1949 pediu demissão da firma para entrar para a Ordem Franciscana Capuchinha. Nessa mesma data o Diretor da firma aceitou seu pedido emitindo esta declaração:
“Pela presente cabe-nos declarar que o Sr. Antônio Marcelino Júnior retirou-se hoje de nossa firma, tendo sido nosso auxiliar desde princípios de 1938.
Muito lamentamos que o Sr. Marcelino tenha tomado a resolução de retirar-se de Santos, pois não só é um bom amigo, como sempre foi um auxiliar dedicado, honesto, correto e cumpridor de seus deveres em todo sentido da palavra.
Fazemos sinceros votos para que o Sr. Marcelino seja muito feliz em seus futuros empreendimentos, pois disto é merecedor”.
Noviciado e Profissão
Vestiu o hábito de Postulante em Taubaté, no convento Santa Clara, aos 19 de julho de 1949. Iniciou o noviciado no mesmo convento, em Taubaté, aos 18 de março de 1950. Foi seu Mestre Frei Epifânio Antônio Menegazzo. Emitiu a profissão temporária, perante seu Mestre Frei Epifânio, em Taubaté, aos 19 de março de 1951. Fez a profissão perpétua, perante Frei José Vendrame, no convento Imaculada Conceição de São Paulo, aos 19 de março de 1954.
Vida na obediência
Emitida a profissão temporária, Frei Juliano foi transferido para o convento Imaculada Conceição de São Paulo. Aí permaneceu 40 anos. Em 43 anos de Vida Religiosa, teve apenas três transferências. A primeira foi em abril de 1951, de Taubaté para São Paulo. Aí ocupou o ofício de alfaiate até dezembro de 1953, quando escolhido para Irmão Companheiro do Ministro Provincial, por dois triênios, até dezembro de 1960.
Recebeu a segunda transferência, de São Paulo para Santo Antônio do Embaré, em Santos. Aí recebeu o ofício de porteiro por três anos, de 1961 a 1963.
A terceira transferência foi de Santos para o convento Imaculada Conceição de São Paulo, em dezembro de 1963. Em São Paulo, foi sacristão, Arquivista Provincial, Ministro dos Enfermos e da Eucaristia. No convento era encarregado dos hóspedes e de levar correspondências ao correio.
Sacristão 15 anos
Frei Juliano foi sacristão na igreja Imaculada Conceição, em São Paulo, 15 anos. Na época, as intenções de missas eram individuais. Não havia missas comunitárias. A partir das 5 às 12 horas, de meia em meia hora havia celebrações de missas no altar-mor e nos altares laterais da igreja. Ocorria fre-qüentemente haver missas em todos os altares, 11 missas, no mesmo horário. O sacristão tinha que preparar tudo: altar, cálices, galhetas, missais, acender as velas dos altares, as luzes da igreja e das capelas laterais, colocar pano ou essa para as orações de exéquias no final das missas. Devia estar atento para que não faltasse um coroinha ou Irmão Terceiro para ajudar às missas.
Havia normas para as celebrações das missas e dos casamentos. Os fiéis, ao marcar as intenções, podiam escolher celebração nº 1, 2, 3, e 4. Celebração nº 1 era cantada com três padres, órgão e canto, todas as luzes da Igreja acesas, todas as velas, 12 castiçais, acesas. Tinha que preparar a maior e mais solene essa no fundo da igreja, para as orações de exéquias, no final da missa, com canto do “Dies Irae”, incenso e aspersão.
Na celebração nº 2 já não se usava tudo como na primeira, mas era solene. As outras celebrações nº 3 e 4 já eram bem mais simples.
Na parte da manhã, a igreja Imaculada permanecia lotada de fiéis do mais alto nível social de São Paulo. Por toda parte, no claustro, nos corredores do convento, ouvia-se grande vozerio de vários tipos de celebrantes, de sons de campainhas diferentes e, no final das missas, muita dor, choro e lágrimas.
O sacristão devia providenciar sacolas ou cestas para recolher as coletas oferecidas pelos fiéis.
Os casamentos também seguiam graduações. A igreja Imaculada Conceição já foi a mais procurada para casamentos em São Paulo. Em 1965, no mês de maio, num sábado houve 25 casamentos. O tempo destinado para cada casamento era de 15 minutos. Frei Juliano solicitava ajuda dos Estudantes de Teologia para fazer atas, acolher as testemunhas para assinaturas. Era responsabilidade dele organizar uma equipe para trocar a passadeira, diminuir ou aumentar os arranjos de flores, abrir a porta para a noiva, encaminhar o pessoal do casamento findo para a sala de cumprimentos, de tal forma que não impedisse a entrada da próxima noiva.
Aos domingos, no período da tarde, havia muitos batizados. Eram celebrações também movimentadas que mereciam muita atenção, delicadeza no bom acolhimento.
Frei Juliano desempenhava seu ofício de sacristão, nessa realidade, com verdadeiro espírito de fé no valor da obediência, humildade, dedicação, bom humor e simpatia. A alegria estava estampada no seu rosto e com um sorriso sereno cativava a todos. Foi um sacristão exemplar.
Ministro da Eucaristia e dos Enfermos
Desde 1972, mesmo ocupando os ofícios de sacristão em situação bem diferente, e de Arquivista Provincial, Frei Juliano atendia a muitos enfermos nas residência e nos hospitais, dentro e fora da paróquia, levando-lhes a SS.ma Eucaristia e o conforto da palavra cristã e amiga. Era procurado por uma multidão, sendo necessário agendar dias e horas para o atendimento. Distribuía orações e bênçãos aos que o procuravam. Aconselhava os necessitados.
Gratidão a São Francisco e à Ordem Franciscana
Frei Juliano louvava e agradecia continuamente a Deus pelo santo que é São Francisco de Assis e pela Ordem que ele fundou. Reconhecia que, como afirma Jesus no Evangelho, a “quem renuncia tudo” e professa a pobreza e a obediência, não falta nada. Considerava grande conforto ter uma cela para dormir, alimentação, médico, remédios, viagens. Costumava dizer: “Que seria de mim sem a Ordem Franciscana Capuchinha e a vocação para viver esta vida?!” Valorizava profundamente a fraternidade de todos frades, a amizade e o carinho do povo para com ele por ser frade.
Devoções
Como bom franciscano, Frei Juliano cultivava muitas devoções. A primeira e mais importante era a devoção a Jesus no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, passando horas diante do Sacrário. A segunda devoção era para com Nossa Senhora Imaculada Conceição, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, tendo seus motivos inspiradores nestas devoções. Para São José rezava pedindo proteção na hora da morte. Depois vinha São Francisco, Santo Antônio e todos os santos da Ordem. Para todos fazia Novenas ou Tríduos por ocasião de suas festas. Conservava as imagens ou estampas de todos na estante em cima de sua escrivaninha.
Gostava de estar com os frades
Frei Juliano marcou profundamente a vida de nossa Província com sua bondade, inteligência, perspicácia, humildade, simplicidade, dedicação, bom humor, alegria e sadia afetividade. Era equilibradamente afetivo para com todos. Prezava grandemente a amizade com todos e com cada frade. Nos encontros fraternos e no refeitório queria estar por dentro de tudo, não podia perder nada, não por curiosidade, mas porque desejava que todos os frades e comunidades estivessem bem.
Morreu sem reclamar
Há anos Frei Juliano sofria carregando pacientemente a cruz da enfermidade, sem reclamar. Era diabético. Depois de algum tempo, necessitando de andador para se locomover, foi para a cadeira-de-rodas. Em novembro de 1993 foi transferido pela última vez para a Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, enfermaria de nossa Província, em Piracicaba. Era muito realista. Foi para lá consciente de que a morte o esperava. A um confrade que, transferido para Santos, o visitou em São Paulo, disse Frei Juliano: “Amanhã vou para Piracicaba, para a enfermaria Nossa Senhora dos Anjos. Será minha última morada. Mando lembranças e abraços ao Frei Eugênio e Frei Germano. Diga-lhes que os espero lá na eternidade”.
No dia 11 de abril de 1994, a “Irmã Morte” veio aliviar o sofrimento e libertar nosso irmão Frei Juliano da dor e da doença. Faleceu sem reclamar, confiante na proteção de São José.
Após, missa exequial, presidida pelo Ministro Provincial Frei Augusto Girotto, concelebrada por muitos sacerdotes capuchinhos, com participação de vários confrades e fiéis de São Paulo e de Piracicaba, o corpo de Frei Juliano foi sepultado no Jazigo dos frades Capuchinhos no Cemitério da Saudade de Piracicaba. “Quem crê no Filho terá a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 40).
Frei Joaquim Dutra Alves, O.F.M. Cap.